A CABRA
Segunda-feira, Junho 21, 2004
 
O Cartão Vermelho
No rescaldo pós-eleitoral,as milícias de esquerda,germanadas na usual tautologia fossilizada e no inelutável e nidoroso jacobinismo,casquinaram escabreadas e zurziram com verrina na coligação que nos governa.Nessa invectiva ouriçada,foram secundadas por zânganos e sinecuras da nossa abolorecida televisão,criaturas pretensamente omníscias,que a suxa grei vai infelizmente turificando.
Nos elóquios vaniloquentes dessa gente,deu para singularizar uma dissonância burlesca:a cor do cartão.Enquanto que uns obtemperavam que o cartão devia ser amarelo,outros,mais solertes e cavilosos,exigiam o cartão vermelho,isto é,em metáfora futebolística,reivindicavam a expulsão urgente de quem,em seu entender,não sabe governar.Esta foi a suma da parlenga e do flagício televisivo da noite eleitoral.
A minha perplexidade,e a razão deste comento,radica na circunstância de que nenhum dos pantólogos em cena se apercebeu,ou ousou opinar,sobre o significado seminal dos resultados.Quando mais de 60% dos portugueses optaram pela abstenção,é legítimo eduzir que uma maioria significativa e preocupante dos cidadãos não confia nos actuais partidos políticos,sejam de direita ou de esquerda.É pertinente asseverar,deste modo,que houve de facto um cartão vermelho,atribuido pela maioria abstencionista a todos os partidos.Esta foi,em meu entender,a mensagem essencial do plebiscito,e que tem sido habilmente escamoteada.
Sejamos claros e probos.Para a maioria dos portugueses,começa a ser intolerável a cultura aparelhística partidária.De facto,os partidos políticos transformaram-se em desertos de ideias,em intermúndios do psitacismo e em luras onde se acoitam e acutilam,em número crescente,sicofantas,alcaiotes,galopins,trânsfugas e pascácios.Se isto não bondasse para desacreditar a democracia,acresce o facto de que os nossos governantes são maioritariamente recrutados nesse pragal sáfaro.Emanados de quadros partidários desconceituados e usualmente indoutos,os sucessivos governos mergulham céleremente na inanidade e evolam-se na efemeridade.
Para a maioria dos que se abstiveram nas eleições europeias,é crucial ousar governar sem a intrusão nocente e a promiscuidade da canga partidária.Um governo autêntico e emancipado,age em função do país,e não em consonância com a fatuidade,o fetichismo e a ebriedade folclórica dos aparelhos partidários.Se assim não for,o cartão vermelho dos descrentes tenderá a proliferar,perigosamente.
Segunda-feira, Abril 19, 2004
 
O 25 de ABRIL

O golpe militar de 25 de Abril culminou,felizmente,na instauração de um regime democrático,graças,fundamentalmente,à vontade popular.Uma minoria castrense,acolitada por uma récua de renegados,ainda tentou,cavilosamente,implantar outra forma de servidão.Foi açaimada,amestrada e reduzida à sua real expressão:uma minoria ideologicamente abolorecida,senecta e caduca,ainda que persista,de forma contumaz e cabalística,na tentativa de expungir as virtudes da democracia.Saramago e o seu ensaio sobre a lucidez,é um exemplo estreme desse fetichismo.
Apesar da sua decrepitude e da sua actual caganificância,estes grupelhos de uma esquerda que nunca abdicará de apoucar,desconceituar e derrogar,se possível,a democracia,devem ser alvo de permanente atenção.Quem testemunhou o 25 de Abril recorda como tentaram avocar os louros da revolução,embustear o povo ingénuo,e atassalhar os valores seminais do nosso património histórico e moral.Deixaram marcas que ainda hoje cicatrizam.
Foram os partidos democráticos,com o entusiástico apoio popular,quem assegurou a concretização do ideário original do 25 de Abril.O PREC,desaurido e desencabrestado,foi contido e derruiu.Iniciava-se a evolução democrática há muito almejada.
Trinta anos são passados sobre esse memorável evento.Valeu a pena?Óbviamente que sim.A liberdade é tão necessária,quanto o ar que se respira.Só que...
1. A liberdade não é um direito ingénito e absoluto.Demanda responsabilidade e escrupuloso cumprimento do dever.
2.A liberdade é o fermento catalisador da competência e do mérito.
Acontece,infelizmente,que a irresponsabilidade persiste em defluir com destemperança,e o sentido do dever degenerou de forma indecorosa;por outro lado,os valores do mérito e da competência emurcheceram,de tal sorte têm sido vilipendiados.Nesta evolução democrática de trinta anos,permitiu-se que,a coberto da liberdade,madurassem a torpidade em lugar da nobreza,a segnícia em vez da proficuidade,a devassidão sobre a morigeração,a verrina em vez da urbanidade,o jacobinismo em lugar da curialidade,a pedantocracia primeiro que a meritocracia.Este abastardamento do ideário do 25 de Abril pode ser desastroso,se não for urgentemente banido.Quem decide sobre os desígnios do nosso país,não são os partidos,nem os governantes,nem a corporação castrense,e muito menos a comunicação social como bacocamente pretenderia.O povo que sufragou o 25 de Abril,pode em qualquer momento reclamar e impor a sua repetição,se o país continuar a ser vampirizado e dessangrado pelos sátrapas,sibaritas,alcaiotes,anaios,caciques
e toda a choldra de fantoches,galopins e grulhas que têm medrado à sombra da liberdade.

Coimbra,Abril 2004
Sábado, Abril 17, 2004
 
CLONAGEM
Um casal muito rico e progressista,
mas estéril,decidiu abordar
um muito badalado cientista,
para procurar três filhos clonar...

Fixado o preço e consultada a lista
dos modelos,foi somente aguardar
nove meses,estava pronta a prevista
encomenda,três clones de pasmar!

Os clones cresceram sem distinção
possivel,até ver,tarde demais,
que não eram afinal tão iguais:

um deu em ladrão e entrou na prisão,
outro tinha desvios anormais,
e o terceiro,sem dó,matou os pais!...

Coimbra,2000
 
O BILHETE
Não desejo a morte,nem a receio,
dizia-me o doente já ciente
da sentença fatal,o meu anseio
é não ter de sofrer dor inclemente...

Não sou velho,continuou,não creio
em Deus,não julgo ser inteligente
revoltar-me,só registo que a meio
da minha existência,vou deixar a gente

que adoro,tive má sina,má sorte...
Assisti-o durante o internamento,
notei resignação no sofrimento

e muita dignidade.Antes da morte,
deixou-me um bilhete:" já não sustento
a tese do acaso neste evento!"

Coimbra,1995
 
REDENÇÃO
Quando vejo padecer e morrer
no crepúsculo da vida ou na flor
da mocidade,ou confronto a dor
misteriosa,sem poder valer,

quando este enigma tento perceber,
de ver dilacerada e sem valor
a alva da vida,ou sou espectador
perplexo de uma existência sem ter

acesso à vida que achamos normal,
fico confundido,invoco a razão,
mas como nunca encontro explicação,

ou há determinismo natural
e então a vida é uma aberração,
ou quem sofre antecipa a redenção...

Coimbra,1992
 
NATAL 90
Nessa noite de Natal,violento
e alucinado,foi internado
outra vez,no sector do isolamento,
em quarto macabro,e condenado

à masmorra sem ter entendimento...
Regressei a casa,desesperado,
no caminho chorei e num lamento
de dor,nem sei se piedoso ou irado,

interpelei os céus para indagar
porquê deixar assim acontecer
que sofra quem já deixou de viver...

Se poder divino fosse,penar
igual não consentia,ser sem ser
questiona a bondade,em meu entender...

Coimbra,1990
 
DESESPERO
Vi simplicidade e muita humildade
naquela postura e numa expressão
de abatimento e dura provação,
estava envelhecido para a idade

mas nos olhos havia claridade
penetrante e uma interrogação
se adivinhava.Dei a explicação
aconselhada da enfermidade

ruim que o minava,e ele me fitou
serenamente.Não tenho parente
chegado,e um filho deficiente

é a minha companhia,clamou.
Soube que faleceu num acidente,
levando com ele o filho doente...

Coimbra,1990
 
O REMÉDIO
Muito tensa,sentou-se na cadeira.
Solteira,nos quarenta.Perguntei:
de que se queixa?Pois,doutor,nem sei
precisar.Trago na minha carteira

tanta receita e pr'a ser verdadeira
a maioria nunca aviei.
Fiz muita consulta e nunca encontrei
quem acertasse.Esta derradeira

visita enche-me de muita esperança...
Observei a doente mais um cento
de exames.Receitei com temperança.

Encontrei-a depois do casamento.
Estou curada,garante,e logo avança:
só que ainda não fiz o tratamento!...

Coimbra,1986
 
SOLIDÃO
A doente chorava à minha frente,
as lágrimas caíam na enrugada
face,a mão trémula gentilmente
me passou toda aquela papelada

de análises.Ouvi-a atentamente,
buscando a razão daquela magoada
postura,vivia abandonada,
sem filhos,marido recentemente

falecido.Examinei os dados
facultados,após observação
clínica minuciosa e então

dialoguei longamente.Os achados
eram irrelevantes.Anotação
na ficha da doente:solidão!

Coimbra,1984
 
O DOENTE
"Vim marcar um exame,pode ser
pr'a fins do mês que vem,não é urgente...
vou tentar primeiro com a mulher
cuidar dumas territas cá da gente..."

" Senhor doutor,que venho cá fazer?
não me dói nada,só ultimamente
perdi o apetite de comer...
mas isso passa,não estou doente!..."

Olhei o homem,novo na idade,
de cor terrosa e ar martirizado,
sondei-o por dentro e a fatalidade

lá estava,roendo um bom bocado
do estômago,com ferocidade!
Dois meses depois era enterrado...

Coimbra,1979
Quarta-feira, Abril 14, 2004
 
CRUCIFICAÇÃO
Esta lágrima que tomba incessante
dentro de mim,que queima e dilacera,
que transporta o rugido de uma fera
acossada,e que não seca um só instante,

é a mesma que enxerguei no distante
e assustado olhar de quem espera
uma sentença cruel na quimera
de uma juventude vacilante...

Essa crucificação impiedosa,
que presenciei de forma permanente,
ao longo de uma vida tormentosa,

quedou-me angustiado e impotente
e fez brotar a lágrima raivosa
que queima e dilacera cruelmente...

Coimbra,1988
Segunda-feira, Abril 12, 2004
 
AO CARLOS PINHO
Soube hoje que este Amigo vai partir
e tanto tinha ainda para dar...
Não vou carpir a dor,não vou chorar,
nem tentar perceber ou extrair

um só pensamento.É muito exigir
neste momento o que possa agitar
o sentimento,vou tentar calar
a emoção e nem sequer ouvir

a razão que nada pode;quedar
petrificado é a única postura
que me resta,deixar-me assim ficar

matéria inerte e nela retalhar
um grito enorme para desventura
tão cruel em silêncio amortalhar...

Coimbra,2002
Sexta-feira, Abril 09, 2004
 
ORAÇÃO
Que se faça luz no entendimento
e em meus olhos,para achar a via
da esperança,e respire a magia
da pureza tocando o firmamento...

Que de perdão se faça meu sustento,
e oiça a dor durante a travessia
tão longa e tão fugaz da existência,
para assim prelibar o encantamento

de raiar as portas da eternidade...
Que não seja poeira,eternamente,
batida pelos ventos da saudade,

mas pó me sinta agora no presente,
e renasça de novo sem idade,
despido de matéria evanescente...

Páscoa,2003
 
LUZ DA ALMA


Sobeja-me da vida o que não fiz,
e tanto foi,e tanto de errado...
Que tenha cotação, é minguado
o crédito de acções...Tentei feliz

alguém suavizar e sempre quis
esforçar-me,valha-me ter tentado;
não sei que seja contabilizado
o propósito são,nada mo diz,

que sombras sobejam igualmente
no turvo entendimento.Ter deixado
filtrar a luz da alma,tenuamente,

de bom me resta;tenho contornado
o alegre desespero e ardente
busco em mim o segredo ambicionado...

Coimbra,2003
Domingo, Março 28, 2004
 
A FALÁCIA DA ESQUERDA
A esquerda em Portugal é ficção,
vende ilusão e compra fantasia,
e nesta delusória antinomia,
lá vai alimentando a obcecação

incônscia do poder.Que maldição
ousa funestar a grei,que heresia
ínvia e podrida quer ser guia
mitómano da minha geração?

Por mim,nunca aceitei o baldio
das ideias e a nugação da mente.
Apostar no embodegado vazio,

é no pragal espalhar a semente
e só cardos colher no chão bravio...
Isso não farei,terminantemente!

Coimbra,1999




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